Mesmo assim o Natal tem coisas boas. O Cheiro a canela que invade toda a casa, a fatia de bolo rei ou de um doce qualquer sempre disponivel se tivermos fome e ainda ser cedo para a refeição, o jantar que demora mais do que os 5-10 min normais e que se prolonga com recordações e conversas paralelas muito vezes fúteis mas que a aquecem a alma.
Raramente sinto-me inserido num grupo, vejo tudo de fora, mas sei que tenho o meu grupo, muito restrito e pequeno mas onde tenho o maior espaço do mundo.
A todos aqueles a quem não desejei boas festas e também aqueles que tiveram essa bondade para comigo as minhas sinceras Boas Festas...
Quando vejo noticias na tv que abrem com resultados desportivos, corrupção e sinto toda uma cultura em que se dá valor a coisas tão vazias, necessárias na dose ideal mas consumidas em excesso, constato que temos tanto a ver com todos os países latinos como o México, Argentina, Brasil. Não tenho nada contra este tipo de países mas é uma cultura com a qual não me identifico. Paga-se rios de dinheiro a quem anda atrás da bola, faz-se destes heróis nacionais, programas dedicados, medalhas de mérito. Pessoas acusadas de corrupção que pagam cauções de 200 mil contos para não estarem presas em prisões vips e vão mesmo assim passar o Natal na Suiça. Estas pessoas ainda são aplaudidas por alguns desgraçados que trabalham a "sério" e estão na miséria que ainda acusam a justiça a quem descontam os seus ordenados e que existem para os servir.
Nisto tudo há algo que não bate certo, algo que não consigo compreender.
Esta é a altura em que todos têm de andar com um sorriso na cara, desejar boas festas. É também a altura com maiores niveis de depressões. Estatísticamente é também a altura do ano com maior taxa de suicidios. É apenas curioso mas muito lógico se pensarmos um pouco e inevitável...
O tempo é como a areia fina da praia nas minhas mãos. Por mais que a tente agarrar ela escapa-se-me por entre os dedos.
Estes últimos dias assim tem sido. As caixas de medicamentos amontoam-se na mesinha de cabeceira. As indisposições aliam-se ao tempo frio e às depressões e não estou bem em lugar nenhum. Cambaleo dum lado para o outro sem encontrar o estado razoavelmente perfeito. Penso sempre que amanhã estarei melhor e que no dia a seguir já não me lembro de nada disto mas não encontro esse Sr. Amanhã.
Sendo assim, se alguém o vir diga-lhe que estou a procura dele...
Movo-me lentamente no meio da multidão.
Piso no charco calmo que se esvazia, e entro nas ruas apertadas e cheias de gente com sacos ou com pressa de chegar ao destino ao som de músicas natalicias que tentam recriar um espirito que já não existe ou nunca existiu e que apenas existe na cabeça das pessoas, espirito virtual. Cheira a castanhas, mais a frente a incenso. Tento não pisar o homem que pede esmola, mais a frente na criança que tem um copo de plástico a seu lado tudo ao som dum refrão alegre: "Santa Claus is coming to town".
Sento-me no largo da cidade num dos bancos de frente para a estátua que ocupa o centro onde tocam dois individuos, com aspecto indio, melodias ocidentais desafiando a música natalicia que percorre a baixa.
Observo e reparo clinicamente nos pormenores do que me rodeia, reparo nas coisas pequeninas. Imagino histórias das pessoas que passam.
Suponho que os homens que tocam vão comer de borla ao café que está ao lado por animarem o largo. Uma rapariga parada espera por alguém que não chega olhando desesperadamente para o telemóvel. Um casal passa feliz e apaixonado. Dois colegas de trabalho (homem/mulher) talvez dum banco, vão supostamente almoçar e o olhar dela parece envergonhado por uma piada do colega que parece interessado nela. Sorrio para a criança que se delicia com os pombos a fugirem de si. Desvio o olhar rapidamente se sinto a olharem para mim... A rapariga continua à espera...
Olho para as horas e desapareço na multidão... está na hora...
Estou a comer gelado com frutos silvestres ao som de Coldplay (4- "The Scientist"). Devem tar a pensar: "Comer gelado quando a própria água de el cano já sai gelada nestes dias e em que o vento gela as mãos e o nariz". A verdade é que não estou a comer gelado para tentar ser diferente ou porque me sabe muito bem comer gelado agora mas sim porque uma visita ao dentista fez com que eu tenha de assim fazer. Um cafézinho ia melhor mas na boa...
Será que sou sempre o bonzinho dos meus filmes? Os outros é que vêm sempre pedir desculpa por terem errado. Não acredito muito nisto. Talvez quando erre não queiram confrontar-me com isso. Preferia que o fizessem.
Mas fazerem me sentir que usei alguém é algo que não admito muito menos quando o fazem pelos seus impulsos emocionais que acabo por perdoar e tentar compreender.
Aliás vendo bem, não me estou a lembrar de nunca não ter perdoado seja o que for...